segunda-feira, 2 de junho de 2014

Os Barões de Dourado.



Jornal: “Folha de Dourado” - Ano II, 22 de janeiro de 1993, Edição Nº84.

Foto: Oficinas da Cia. Douradense (Estradas de Ferro do Dourado).

Dona Cecília B. Pereira de Souza Braga é sobrinha do ex-presidente Washington Luiz e filha de Everardo Valim Pereira de Souza um dos fundadores de Dourado, membro da primeira legislatura da cidade nos idos de 1897. Não bastasse sua descendência, Dona Cecília tem na memória e nos arquivos cuidadosamente catalogados toda a história do município, desde quando Dourado cortou seu cordão umbilical com Brotas até recentemente.

Na edição passada ela deu início ao relato de “Os Barões de Dourado”, penúltima parte do trabalho que vem publicando a respeito da instalação de seus antepassados nessa região. Por lapso da redação a chamada da primeira página para os escritos de Dona Cecília, deram a entender que ali se iniciava a publicação da autora, o que não corresponde a verdade, já que sua colaboração junto ao jornal vem de longa data e várias edições.

Os “Barões de Dourado” são os pontos onde a biografia de Dona Cecília, uma pessoa doce, educada, digna, representante da aristocracia paulista que a saga do café no estado tão bem produziu – e a história do município se entrelaçam e se confundem.

Dona Cecília conta:
Proporcionando-nos lindas pescarias e seus camaradas rumaram a Ilha do Corvo Branco com poucos dias de antecedência e quando lá chegávamos barracas com duas camas largas arrumadas, banheira de lona, os demais pertences como lanchas motores etc comandando-os o melhor dos seus pilotos: o Seo Chico.

Quase tudo vinha da Inglaterra e era desmontável.
Encontrávamos, outrossim frangos já nas panelas e os peixes fresquinhos fumegando nas panelas.
Não faltava também o palmito cujas palmeiras eram derrubadas diariamente (Que judiação!).
Tudo isso acompanhado por vinhos estrangeiros cujas garrafas ficavam enterradas na areia sempre úmida.

O nosso anfitrião nunca sentou-se a mesa conosco sem vestir o paletó de linho branco.
Ocupando a cabeceira deixava-nos ser a vontade e comentava de modo pitoresco: 
- Nhanhã, você gastou dinheiro na Europa, mas eu só gasto em pescaria. Pra mim Paris é barranca de rio!
E os dois ficavam a comentar coisas das que faziam na fazenda dos avós em Rio Claro quando adolescentes.

QUANTA SAUDADE!
Depois do “banquete” iamos dormir. Minha mãe, eu, duas primas tínhamos o privilégio de ocupar a melhor barraca que ficava logo no princípio da Ilha.
Despertávamos as 6 horas da manhã o que pra mim significava o maior dos martírios. Mamãe ia na “canoa de luxo” e eu deitava no fundo do barco lendo História da França!! Não me deixavam ficar na Ilha enquanto pescavam.

Certa manhã na confluência do Jacaré com o Tietê foi um “Deus nos acuda”!! Acabei agarrando também a vara auxiliando-os tremendamente em algo super contra minha natureza: acabávamos de fisgar um jaú de 72 kg.

Antes de conseguirmos chegar a Ilha onde já estavam sabendo do “grande acontecido” o Seo Chico aproveitou para dar verdadeiro show: desligar o motor consentindo que o peixe puxasse a canoa rio acima. Avalie: 3 pessoas um motor Jhonson e uma lata cheia de óleo diesel. todo esse peso puxado pelo coitadinho.

Afinal, exausto, foi deixando-se levar até a prainha da Ilha onde cheguei sem sentir os braços e quase morri de susto quando muitos homens o foram puxando e vi aquela cabeça enorme com um anzol de uns 30 cm mais ou menos.

Jurei nunca mais na minha vida pescar um lambari, pois para conservarem o jaú furaram-lhe os olhos, passaram um cipó, amarrando com bastante força, prendendo-o em uma pinguela com os demais peixes. Eu vi aquele coitado debatendo-se por uns dois ou três dias chegando ainda com vida em Dourado.
Possuo a sua fotografia, e bem assim, perene remorso!

Na nossa volta, parando em Bariri, mamãe quis visitar a igreja. Aproveitamos então para ver as rosas da praça que eram lindíssimas.
Qual não foi nosso espanto quando nos vimos rodeadas por uma turma gritando: “Chegaram as muié do circo”, repetindo a frase cada vez mais alto.

Examinando-nos bem constatamos que estávamos realmente ridículas. Calças compridas naquela época, creio que só na China e na Índia; roupas amarrotadas, botas, chapéus de palha com abas enormes. Estávamos realmente de assustar.

Com essa apressamos a nossa volta ouvindo-os dizer: “Será que as muié vão embora?”
QUE TEMPOS!!

João herdara a Fazenda Santa Elisa sob cujas mangueiras hoje centenários brinquei muitas vezes em criança.
Felizmente essa fazenda caiu em ótimas mãos; pertencem hoje ao casal Flávio e Wilma Ferreira.
Deixarei para descrevê-la a quem entenda de: organização, lavoura, pecuária, industrialização, etc, etc.

O que posso eu dizer é que considero-a lindíssima no seu todo e que os queijos lá fabricados são incomparáveis.
Hoje não só é um dos cartões de visitas de Dourado, como auxilia pelo seu aperfeiçoamento a difundir o valor deste município.
Quem tem competência para tal?
Creio que só mesmo um agrônomo.

Desse ramo não conheci outros primos de mamãe mas citarei Olympia que casou-se com seu próprio tio Eduardo Augusto e tiveram nove filhos. Residiram por longos anos num casarão de Rio Claro onde hoje funciona o Colégio Bilac”.

Fotos aéreas de 1930/1940 registradas pelo Exército Brasileiro.

 Fazenda Botelho.

 Cachoeira da Fazenda Botelho.

 Visão aérea da cidade de Dourado.

Fazenda Santa Clara, hoje Estância Santa Clara.


Colaboração: Osvaldo Virgílio.


Fotos: Milton Bueno (Nenê do Cartório).

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